quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Caixa de Pandora







Abro a caixa de Pandora,
e, nela, não encontro,
senão pérolas,
tão mortas,
que nem aos porcos as atirarei,

nesta manhã ensolarada de maio.

Não me resta nem mesmo um álibi.
Dobrado como bilhete esquecido,
escrito em um guardanapo qualquer...

O Japão é tão longe daqui,
e as heras que crescem por lá,
não crescem no meu jardim de inverno.

O chá preto esfria na xícara
e o cigarro apagado, ainda guarda as marcas
dos teus lábios grossos.

Morrer é tão doce e cruel,
que não cometerei haraquiri,
por um crime que não cometi.

Quero, sim, cortar os pulsos,

docemente,

e deixar o meu sangue escorrer,

pelas frestas do meu corpo:


abertas para a tua passagem,  
ainda que secretas.





Imagem: William Whitaker



Poema para um cavaleiro andante I






 I
Meu doce faquir, encantador de serpentes,
leva-me contigo para um país distante,
onde o pão se debulha na mesa
e os grãos de arroz desabrocham como flores,
nos campos ensolarados do senhor.


II
Senhor das tempestades,

Não me açoites com teu chicote de tiras e dentes,
pois noite e dia sou a mulher que te espera,
com uma eterna ânfora para refrescar a tua fronte,
Com leite e mel, prá recarregar o teu farnel.
Toma-me nos braços
e bebe o meu vendaval de amor.


III
 Senhor dos oceanos,
Aplacas a ira das minhas ondas estelares.
invades as minhas ilhas interiores,
molhas com tuas àguas abundantes,
minhas terras ressequidas e rochosas:
pois a sofreguidão de tua fome, 
secularmente, 
me seduz. 

Fotografia: Jose Villa





A Inquilina do Amor




I
Ajoelho-me as tuas margens.
Arrasto-me. Arrasada, ergo os olhos para tuas encostas.
Tuas intangíveis escarpas.
Como alcançar-te no ponto exato, onde te perdi?
Muralhas.Mulheres. 
Outras mãos deslizando sobre tua pele.
Escalpo. Florete. Mandarim.
Um olho cego desnorteia-me nessa procura obscura.

Florestas. Tramas. Ramas.

Teus rastros deixados em minhas paredes uterinas.
Hieróglifos. 
Caracteres de uma escritura sagrada. 
Tento decodificar os arabescos indecifráveis, 
mas perdi o mapa do seu peito. 


II
Eu tinha a bíblia do teu amor, aberta, sobre a minha penteadeira,
Mas não a li.
Escovas. Cabelos. Arlequins.
Experimento novas e antigas máscaras.
Vejo-me no espelho e não reencontro mais o meu rosto.
Mestre. Mastro. Maestro.
Tua deixaste de reger a orquestra de sinos de ventos,
que cantarolavam em mim.
Nas insones noites, feitas de longas despedidas
e ausências.
Abandonaste a casa que te serviu de abrigo,
na escuridão dos teus dias mais pérfidos.
Ao fechar as portas, com ferrolhos e chaves inquebrantáveis,
aprisionastes para sempre, essa desesperada inquilina do amor.